A linguagem utilizada pelo autor é de fácil entendimento, porém, faz uso exagerado de narrativa descritiva deixando a leitura, em certos momentos, cansativa. É também um elemento fundamental para dar veracidade aos fatos e detalhar melhor a cena trabalhando com o imaginário do leitor. São cenas estarrecedoras, fatos que mexem com o emocional, faz o leitor ficar ansioso pelo desfecho, emocionado, ter sede de justiça e por fim, compreender que tudo se trata de uma infeliz realidade.
O autor com sua peculiaridade conta histórias dentro de outra história. Esta forma de tecer a obra nos demanda muita atenção para que o leitor saiba quando um fato que havia sido interrompido foi retomado novamente. Rota 66 tem esta característica quando estamos a ler um determinado acontecimento e, por um momento, nos damos conta de um pequeno desvio na história, utilizado de forma explicativa.
Esta “brincadeira” ele também faz atualmente em seu programa “Profissão Repórter”, que vai ao ar na TV Globo, com formato dividido em três blocos, começando a apresentar determinada história que é interrompida por outras histórias. Quando o telespectador começa a se interessar pela história que está sendo apresentada, o programa volta a mostrar a história que estava sendo apresentada no início do programa (um verdadeiro jogo de atenção e audiência).
Mas, analisando a obra de interesse, Rota 66 é divida em três partes sendo que a primeira parte contém nove capítulos; a segunda parte contém sete e a terceira parte, também contém sete capítulos. Um livro voltado para conduta de Policiais Militares das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar – SP, o autor nos conta seu plano de denuncia que se torna mais abrangente com várias descobertas.
Todos os capítulos são ocupados por relatos de crimes bárbaros, cenas do crime forjadas, morte de inocentes, ações violentas de combate ao crime, à quantidade de policiais desnecessárias numa ação, agressões, mentiras, revolta e muita dor, mas o último capítulo também é direcionado a uma conclusão surpreendente.
Caco Barcellos, como jornalista investigativo, relata ter crescido vendo jovens das periferias correrem do Veraneio; impunidade, morte de trabalhadores, a dor das famílias, a chance que não é dada para recuperação de jovens envolvidos em furtos e assaltos, as abordagens de tortura dentre outros, faz- nos supor que o levantamento e o nível de interesse em identificar as vítimas de assassinatos por policiais, através do seu banco de dados – feito com base em entrevistas, recortes de jornais e análises de outros materiais - faz parte desta vivência que lhe proporcionou maior encorajamento e necessidade de fazer algo pelos injustiçados.
O livro é um trabalho que mostra não apenas a formação de um jornalista, seus ideais e interesses, mas um investigador que vai além de suas forças físicas, se fazendo presente em órgãos públicos para colher informações que pudessem ajudar em sua pesquisa: IML, Cartórios, Hospitais, delegacias, dentre outros, lhe dando com pessoas que poderiam acarretar-lhe grandes problemas pessoais. Se isto aconteceu, a obra nada comenta, dando preferência apenas às retaliações vividas por outros.
Um quesito importante a ser observado é a imparcialidade. Este sentimento que jornalistas lutam para doar em suas matérias é algo que a produção de Caco não possui, ou pelo menos, esta produção – especificamente. Ele faz questão de mostrar que possui um lado e este lado é o dos mais fracos, ou seja, das vítimas. Essa afirmação não ocorre apenas na apresentação do livro Rota 66, mas em todos os capítulos, de forma a argumentar sua defesa com fatos reais e instigantes.
A forma como Caco Barcellos conduziu sua experiência de pesquisa em paralelo com sua profissão, leva-nos a questionar o papel do jornalista na sociedade e sua conduta. Cabe ao jornalista por em risco sua própria vida em prol da informação? Cabe ao jornalista investigar a fundo, interpretar, traduzir e informar? O jornalista tem que ser imparcial o tempo todo?
A imprensa, por sua vez, une um “turbilhão” de informações coletadas na correria da vida jornalística e lança sobre a sociedade. A apuração dos fatos é um processo minucioso e que muitas vezes é vedado, mesmo se verdadeiro. Muitas empresas de comunicação se reduzem a mostrar apenas aquilo que lhes interessam e que não irá lhes causar “danos financeiros e retaliações”, uma verdadeira politicagem.
Rota 66 também é conduzida a um cenário com esquema de politicagem quando mostra uma polícia que acoberta crimes, patentes homenageadas e matadores com sua moral elevada, além de contar com uma imprensa que noticia informações oficiais não sendo verdadeiras e a classificação de notícias que “rende” mais. “Sou novato na profissão, mas já constato que na cobertura de assuntos policiais a imprensa também dá um tratamento diferenciado às pessoas pelo critério da sua condição social” (BARCELLOS, 2012, p.26)
O primeiro capítulo apresenta três jovens: Fernando Noronha, Augusto Junqueira e Carlos Inácio que estão em um fusca azul sendo perseguidos por um Veraneio Cinza, da Polícia Militar. Todos eram menores de idade e faziam parte da classe social média alta. A narração contém informações sobre a rotina dos jovens e todos estes elementos, são vistos por Caco como um ponto inicial para estudar passo a passo o que levava a polícia a matar, qual o perfil dos jovens assassinados - classe social e a ficha. “Ao disparar a metralhadora contra o Fusca azul, eles nada sabem a respeito da vida dos três rapazes”. (BARCELLOS, 2012, p.44)
Caco utilizando seu faro jornalístico tentava concretizar sua pesquisa ouvindo diversas fontes e analisando todas as possibilidades. Atualmente, alguns jornalistas se prendem a ouvir duas fontes ou três, que as garantem e as assegurem da pauta proposta. A obra mostra um jornalista disposto a ouvir não apenas uma, duas ou três, mas ouvir, pesquisar, investigar, comparar todos os indícios e fontes.
Sua pesquisa foi praticamente um trabalho de “formiguinha” que se valia de um objetivo além de informar: Tinha sede de justiça e queria uma evidente mudança. Sua obra tem objetivo semelhante: o de promover formadores de opinião, capazes de enxergar além daquilo que lhes são apresentados todos os dias pela mídia e pela própria sociedade.
Utilizou os métodos de Pesquisa no Jornal “Notícias Populares” e também teve acesso a Boletins de Ocorrências, mas sua disposição valia para acompanhar a movimentação que acontecia no Instituto Médico Legal. Seu objetivo era entrevistar pessoas que pudessem esclarecer e justificar as mortes, e se estas eram vítimas de assassinatos em troca de tiros com a polícia. Na coleta de informações junto ao cartório da justiça militar, mesmo sendo fonte confiável, encontrou dificuldades frente à burocracia. Com os elementos em mãos, Caco, fez uso de comparação para tentar estabelecer correlações e chegar a conclusões.
No livro é possível encontrar vários fatos que nos impressionam, mas, analisando de forma crítica e jornalística e deixando de lado as emoções podemos destacar como fabuloso todo o empenho que o jornalista investigativo teve. Conseguiu uma sala pequena, entulhada de papéis, livros e vidros com amostras dentro do IML. Tinha um plano e o colocou em prática mesmo com todas as dificuldades ali impostas. Não era uma sala empoeirada que o faria parar e muito menos, a desorganização dos documentos.